Um dia…

Era um poço de águas cegas sem o alerta firme do leito

Jangadas tombavam e mesmo que os saveiros

Corajosos navegantes de alto-mar

Pediam bênçãos ao chegar lá, “axé motumbá”.

 

Eram águas de espécie que não se via

Desde as fontes litúrgicas das nostalgias

Era líquido atento ao ralo ar

Éramos só dez dedos e corda à puxar

 

Tinhamos a pele rôta mais que as roupas

Nem um pingo de grão de mais açúcar

Era na voz breve da araruta,

Que inda havia rincão pra se seguir.

 

Deste choroso parto, nem dez nuvens

Desafogaram o tato deste rio

E ia chegando ao mar saliente

Como quem a um pescoço para ler

 

Na voragem do som, frêmito, ceder,

Pois diante do rio, cego e atento,

À  espera do mar, trégua e acalentos

De se andar um caldo, enfim, caldolento.

Caixinhas vazias

Coragem não tem fósforos, quando emociona em mim saudade.
A chama me acega, o olho abre em pouco,
O resto é relance, presente sem chão,
sem cidades, só vãos da mesma rua-beco ou qualidades.

Coragem não revela a colisão do corpo,
Que jaz no vale colhido em montanhas ocas
de um cinto frouxo
soco-inglês no peito rouco de suas verdades.

Saudade não tem corpo, ou mansidão, volumes,
Atravessa o tanto que a matéria sente
E do universo todo, leva a mente longe
e a pele e a gente.

Saudade não tem pele, mas me faz suar
O azul que sobre tu me faz um ser lunar
Um blues que me colheste
Aurora-do-real
que coube sob o lar.


 

Carne crua

Carne crua, que em cor do vento solta o seu perfume,
ócio do intento de nascer
e praguejar ofícios com a boca furtada em ser finita.

Cor de cobre,
coberta em ferrugens
– gracejos do tempo –
de alma quem cara, quem coroa
tombo da valentia?

não ser mais corrente
uma preguiça só
sombra no crivo
de um sol menor
sem muito brilho
sem muita face
sem horas, guias
dos estilhaços.

Carne crua, dorme
teus fragmentos!
Carne crua, que alimenta o vento
e seu perfume,
cambaleando o sangue aos pés.

Carne nua, sem escapulários.
Seca tuas feridas, pois
ouço o rufar de risadas
todas de hienas!

Dia 19 de abril

Dia 19 de abril vou tomar aquela golada de coragem,
Vou chegar com um bafo de amor incontrolável na tua porta,
Irei pedir seu telefone, endereço e adereços,
Vou cavar um verso uivante e te dizer em sussurros,
Vou acasalar com os teus olhos e cheirar teus amassos,
E cantar aquela música do cazuza, pensando na Cássia Eller:
“Eu preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que te amo taaaaannnto!”

Quero ser mais piegas e carinhoso e fatídico que o Reginaldo Rossi,
Vou empacar que nem o burro Pedrez na sua janela.
Só saio dos olhos se eles forem de vidro.

(Esse poema é só pra encher o finalzinho do espaço que ainda cabe em seus olhos…
seus olhos-livro. E mesmo assim, é pouco que posso ao dizer que te gosto! Taaaanntoo!)

Tive que dar os binóculos

O engraçado de parar para ler esse livro (literalmente de dentro), é que precisei aprender em usar dos olhos de outra maneira, por mim, nunca imaginada antes.
Me sinto quase como aqueles jacarés, que para ver precisam abrir os olhos (cada um deles) duas vezes. Quando pensamos que eles já abriram os olhos, percebemos aquela coisa que mais parece o ápice de uma conjuntivite ancestral.

Enfim, abrir e fechar os olhos é fácil para quem não anda com peixes.
Mas cerrar os olhos e usá-los um por vez… não sei ainda como se faz ao certo, mas é por assim dizer:
Me fecho os olhos
Me garanto no contato com o escurinhos de ir pra dentro, mas casando um escuro
de cada feita, tendo duas páginas apenas pra ler.

Quando ela me deu este livro me deu um mistério do seu fazer,
e quando durmo, antes da vigília,
é como se tivesse duas línguas embaralhadas,
Uma dela
e a outra minha.

As vezes para se lembrar do que escreveu ela pede para eu recitar suas palavras pra ela.
Fico feliz por poder servir de arquivo,
pois quando ela terminou de me tatuar lá dentro foi em queimar os manuscritos.
Ela queria que o livro fosse apenas em mim.
Achei isso mui amoroso.

Me encontro cheio
Mas ainda sinto meus vazios.